quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Anton Pavlovich Tchekhov (1.860/1.904)


Um Observador exímio da alma humana, daquele a cconhecer melhor o indivíduo que este por si mesmo. Algo que já se mostra sabido para o leitor são os antecedentes do personagem. Algo para o ator aprimorar sua tecnica. Um tipo nos chega já com um histórico. Algo apconteceui antes da cena apresentada, um conflito aconteceu ou esta em curso. No caso de As Três Irmãs, percebemos primeiro a nostalgia, depois os fundamentos. Um personagem é apresentado e só então entendemos a angustia de outro, como na mesma peça, Macha e seu marido. Tchekhov destaca a classe social em declínio: a aristocracia russa. São pessoas que praticamente desaprenderama viver e precisam adaptar-se às mudanças em curso. Todo tipo de radicalismo esta em andamento e a antoga casta vê-se insegura, perdida, tateando. Apesar disso, é o público principal de Tchekhov, ainda sabe apreciar o que assiste, ainda tem discernimento. Não são apresentadas soluções. Há quela indisposição para a luta, a pré-ciência da inutilidade da batalha. Qual o motivo do esforço se o resultado já é sabido de antemão? A unica coisa a fazer é tentar. Ao menos tenytar, nunca desistir. Isso é realismo, não pessimismo.
(Residência artística no Teatro Estúdio Tabaquerque de Oleg Tabakov, situado em Moscou, Rússia, durante o período de Fevereiro de 2009.) - Pesquisa feita por Leonardo Costa

Prédio da Academia


Ecila Meneses em frente ao prédio da Academia Russa de Teatro.

AULA DE CORPO


Aula de corpo com o professor Vladimir.

Ecila Meneses em ação e Cristiane Góis ao fundo de preto.

Hamlet


Aplausos da montagem do espetáculo "Hamlet" de atores de Moscow.

Muito Barulho por Nada


Cena final do espetáculo "Muito Baruloho por Nada" de Shakespeare. Montagem de conclusão do curso dos alunos da Acad.

O Jardim das Cerejeiras


Cena final do Espetáculo "O Jardim das Cerejeiras" feito pelos atores e atrizes de Moscow.

GETS em Moscow


Sala de aula. Cena I; Ato I.

espetáculo: As Três Irmãs

Atrizes: Ecila Meneses (de azul) e Cristiane Góis (de branco ao fundo) junto com outros atores brasileiros que estavam fazendo o mesmo curso.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Tchekhov por Virgínia Woolf

Virgínia Woolf considerava Anton Tchekov como um subtil analítico das relações humanas. As suas "histórias sobre quase-nada", estendem o nosso horizonte, e permitem-nos alcançar um espantoso sentido de liberdade.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Análise de Harold Bloom sobre: "As Três Irmãs"

Entre todas as obras de Tchecov, As três irmãs é a mais difícil de ser classificada, em parte, porque carece de um gênero definido. A peça pode ser considerada tragédia, tragicomédia, comédia ou o que o leitor quiser. Howard Moss, no ensaio mais tchecoviano que existe a respeito do texto, observa que "a incapacidade de agir torna-se a ação da peça". Sempre me fascina, quando releio o ensaio de Moss, o comentário de que Tchecov (assim como Proust) jamais nos oferece o retrato de um casamento feliz. Neste particular, sempre digo a meus alunos que o casal Macbeth é o mais feliz em Shakespeare. A maior lição que Tchecov aprende de Shakespeare é fazer com que nenhum personagem se dê ao trabalho de escutar o que o outro diz, especialmente se forem amantes. Monólogos intermináveis e um solipsismo maravilhoso marcam os personagens de Tchecov, assim como os de Shakespeare. Que Tchecov é irônico fica muito claro, mas a ironia de Shakespeare, à semelhança da de Chaucer (segundo Chesterton), é grande de mais para ser percebida.
As três irmãs de Tchecov, tão familiares quanto as nossas amigas mais íntimas, chamam-se Olga, Masha e Irina. A maternal Olga jamais se torna mãe e, no entanto, representa, de modo comovente, a generosidade e a bondade, embora o nervosismo a impeça de fazer oposição à cunhada, a vitalista e napoleônica Natasha. Das irmãs, Masha é a que se assemelha a Hamlet, sempre pronta a dizer a verdade, ardente mesmo em sua reticência tchecoviana. Tchecov também aprendeu com Shakespeare a arte da omissão, e a elíptica Masha, mais uma heroína de luto pela própria vida, é o personagem mais cativante da peça. Seu amante, Vershinin, é outra autoparódia tchecoviana: culto, benigno, fraco, insignificante, de vez que não consegue suportar o terrorismo ibseniano de Masha, que atavés da verdade nos bombardeia, até sermos por ela destruídos.
Irina, menos complexa do que Masha, mesmo assim é tão assustadora quanto amável, embora seja incapaz de retribuir amor. Mais até do que Olga e Masha, Irina está convencida de que a volta a Moscou (onde as irmãs haviam sido educadas) resolveria o aperto em que as três se encontram e abriria, para elas, as portas de Eros. A Moscou de Irina, assim como a de suas irmãs, é uma ficção, e desapareceria logo na chegada. Irina e Masha, e até mesmo Olga, bem encenadas, despertam na platéia uma paixão que se torna desesperadora, porque as três irmãs jamais se arriscarão a viver as alternativas disponíveis, tampouco encontrarão forças para deixar de lado o desdém e enfrentar Natasha, a cunhada predadora. Isso tudo pode parecer uma telenovela tchecoviana, mas, através de nuanças, é elevado a um exepcional nível artístico. Uma telenovela em que as três heroínas formam um coro que lamenta a própria ignorância constitui, de certo modo, novo gênero, no qual os imitadores de Tchecov não têm conseguido rivalizar a atmosfera e o ritmo dramático do autor.
Como articular a genialidade de As três irmãs? Moss resume bem a questão: "As irmãs anseiam por realizar o oposto daquilo que logram alcançar, anseiam por se tornar o oposto daquilo que são". Pairam aqui os infindáveis enígmas de Hamlet, mas o Príncipe da Dinamarca pode invocar anjos, ainda que estes não acorram. Levando-se em conta o potencial de seu gênio, Hamlet realiza tão-somente o desastre de oito mortes, inclusive a dele próprio. Embora a catástrofe seja memorável, o desperdício da consciência mais abrangente de toda a literatura seria espantoso, não fosse o extraordinário canto fúnebre de Hamlet, a ária à eternidade. As três irmãs causam um sofrimento bastante diferente e indefinível. Todo o apreço que tenho pelo grande crítico canadense Northrop Frye (1912-1991) é incapaz de minimizar a minha insatisfação, quando, em Anatomia da Crítica (1957), ele registra:
Nos trechos de Tchecov, especialmente, no último ato de As Três Irmãs, em que os personagens, um a um, isolam-se dos outros, recolhendo-se ao interior de suas celas subjetivas, aproximamo-nos da ironia pura, com a máxima intensidade que o palco comporta.
Seja lendo o texto de As três irmãs ou assistindo à sua encenação, sou tomado de forte páthos, quando Masha grita "Precisamos viver...precisamos viver...", Irina proclama: "Vou trabalhar, vou trabalhar...", e Olga abraça as duas irmãs, concluindo a peça com as palavras: "Se nós soubéssemos, se nós soubéssemos!". As irmãs estão presas em uma situação de ironia, mas, absolutamente, não se isolam. Onde há tanto amor, inclusive nosso amor por elas, como é possível haver ironia pura?
Querida (1899), conto escrito dois anos antes de As três irmãs, narra a história de uma alma "bela e santa", Olenka, merecedora dessa descrição por parte de Tolstoi. Ela é tão infantil, e tão maternal, a um só tempo, que, quando não tem quem amar, sente-se vazia, em um estado morto-vivo. É como se não dispusesse de identidade, a não ser no amor. Tchecov a adorava, Tolstoi tinha por ela um sentimento idêntico, e o leitor não tem outra escolha. A vida, com toda a sua crueldade, reserva-lhe a morte de dois maridos, mas ela sobrevive através do filho adotivo, deixado aos seus cuidados.
Os críticos seguem Tolstoi, ao deduzir que, nesse conto, o impulso original de Tchecov é irônico, possivelmente satírico, mas que a história lhe escapa. Desprovida de pesonalidade e idéias próprias, Olenka pode ser encarada como uma versão absurda de mulher, mas tal avaliação me parece superficial. Eu mesmo conheci algumas mulheres e alguns homens, como Olenka. Talvez, todos sejamos como ela, embora a nossa sociedade não saiba lidar muito bem com "almas santas". Olenka possui mente simplória, mas não é, de maneira alguma, deficiente mental, e o modo como escolhemos ler a sua história constitui, inteiramente, um exercício de auto-avaliação. Em sua fase final de contista, Tchecov adota um perspectivismo shakespeariano: que valor tem algo, senão aquele que lhe é atribuído? Os homens de Olenka são seres absurdos, e o filho adotivo é uma criatura fraca, que contra ela transborda um ressentimento reprimido.
Como o próprio Tchecov lia esse conto? Não sabemos, e não creio que isso tenha importância. É difícil aceitar Olenka, e perigoso rejeitá-la, pois, se a desprezamos, ou mesmo se dela sentimos pena, perpetramos uma certa violência contra a alma; condenado pela tuberculose, Tchecov, aos 39 anos de idade, desistiu de censurar o próprio gênio. A pobre Olenka não representa o gênio de Tchecov e, sem dúvida, merece a condenação de Gorky, a partir de sua perspectiva revolucionária. Todavia, é Tchecov, e não Tolstoi, quem cria Olenka. Entre o advento de um e outro ser que possa ser objeto do seu amor, Olenka passa por mudanças.
O leitor pode argumentar, conforme o fazem alguns críticos, que o sentimento de Olenka é devorador, tendo consumido os esposos, enxotado um admirador, e que, com o tempo, tal sentimento provocará a perda do filho adotivo. Não consigo ler a história nesses termos, e Olenka não me parece uma Psique, aguardando a volta do Cupido. Confrontado pela imagem de Olenka, algo em Tchecov se rompe profundamente. Talvez o seu gênio, a despeito de toda a sua sapiência humana, resida mais no reino da aspiração do que os estudiosos puderam até o momento perceber. Segundo entendo, em última análise, Olenka é uma denúncia da aspereza irônica das nossas próprias almas.__________________________
O presente artigo foi extraído do livro Gênio - os 100 autores mais criativos da história da literatura. Tradução de José Roberto O'Shea. Editora Objetiva.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Ventos de Agosto

Na noite de segunda-feira dia 11 de agosto do ano de 2008, no auditório da SECULT – FOR, fui ao encontro de uma experiência profunda e transformadora de teatro em minha vida: o curso "O Tempo de Stanislavsky", ministrado pelo Professor Decano da Academia Russa de Arte Teatral Valentin Teplyakov. Falo não só por mim, mas também, por alguns colegas que tiveram a coragem de se entregar a uma proposta radical e verdadeira de pesquisa do humano e da arte. Na primeira noite tivemos a abertura do curso. Nas primeiras palavras nos deparamos com um senhor alto, de voz forte, concentrado e sereno na sua sabedoria. A fala mansa e pausada, dos primeiros dez minutos, foi aos poucos cedendo espaço para um outro personagem: o do homem apaixonado pela sua cultura e pelo teatro. Ao fim da noite senti como se tivesse iniciado uma longa e rica viagem, mas para onde? Para a Rússia de Stanislavsky, ou para a antiga União Soviética, tão cuidadosamente retratada pelo mestre Valentin? Não, viajara para encontrar-me comigo mesma, num mergulho profundo no Ser. Mas aquele ainda não seria o momento do encontro, mas sim, o momento de partida para este.

Há alguns anos fora dos palcos e da vida artística profissional, eu estava feliz e aterrorizada com o meu futuro, o que me esperaria, e o que é mais doloroso, o que se perdera no tempo e não mais estaria no meu caminho? Esta pergunta, não seria somente minha, pois no decorrer do curso ele nos mostrou o quanto de verdadeiros fomos em nossa infância e o quanto bloqueados, falsos e convencionais somos na condição de adultos cheios de seguranças aparentes e de imagens a preservar. Mas, o que é o teatro? É vida! É a arte da vida plena e profunda revelada em cenas aparentemente casuais ou comezinhas, ou em grandiosos momentos épicos.

Logo na primeira noite foi-nos lançado um desafio por parte de Valentim: - Amanhã quero ver as cenas de vocês! E no dia seguinte, se instalou um constrangido silêncio. Como eu tinha ensaiado na madrugada, lancei-me ao cadafalso, pois o autor escolhido Tchekov é muito mais que um autor difícil, ele é um autor genial. Mas não me atreveria a perder esta oportunidade, pois sempre defendi que os grandes autores e grandes personagens formam um ator. Então, com cerimônia e muita expectativa entrei em cena. Como fui desajeitada e tímida, mas apesar dos entraves iniciais, algo brotou em minha alma, instigando-me a me projetar na personagem vivida. Eu queria fazer tudo de novo, e mais uma vez, e mais... Eu queria viver a verdade e aceitaria qualquer crítica, por mais dura e constrangedora que fosse para poder viver verdadeiramente a personagem.

No dia seguinte repeti, mais a vontade e mais íntima. Mesmo assim, tudo era ainda muito nebuloso e confuso, como se somente a sorte e a fortuna tivessem me guiando. No terceiro dia começamos a vislumbrar um elenco para uma cena, pois ainda me apresentava como se estivesse num monólogo. A cena foi começando a dar ares de embrião, e nós fomos nos envolvendo mais e mais no universo de Stanislavasky e de Tchekov. A esta altura a oficina passou a ocupar outros momentos de nossas vidas, e passamos a entrar num estado de concentração permanente. Isto acontecia devido às indagações que o Prof. Teplyakov nos lançava a cada vez que entrávamos em cena. Com sua franqueza sempre contundente e objetiva, ele nos passava uma segurança de alguém que é fiel a verdade artística e tem respeito ao aluno e ao ator. Por mais dolorosa e até desconcertante que fosse a sua crítica eu sempre me sentia feliz por ter tido a oportunidade de estar vivendo aquele momento.

O estado de inquietação foi constante, parecia que Valentin tinha quebrado a minha espinha dorsal, e agora me convidava para dançar. Atônita, mas muito instigada pela sua revolução, eu fechei meus olhos para os espelhos e fui me permitindo, mesmo que cuidadosamente, viver cada mergulho na profunda alma da personagem Olga Prozorov da obra “Três Irmãs” de Tchekov. Esta experiência muito me revelou, de forma encantadora e apaixonante, sobre o humano, sobre mim mesma, e sobre o teatro. Daí pode-se concluir: como a arte é necessária ao homem. A vida na arte, transcende ao imediato, ao falível, ao banal, ao vulgar, ou seja, a tudo que nos deixa pregados ao chão e nos faz pequenos.

A aula final foi uma apresentação sincera e concentrada de nosso trabalho de três semanas. Ao fim, estávamos felizes, de uma felicidade diferente, como se estivéssemos sentido o dedo de Deus a nos tocar o coração. Realizamos uma comunhão com o olho atento, sensível e perspicaz do nosso mestre, com o público e com as nossas almas. Neste momento sagrado, senti que o trem já havia partido, e a revolução, para qual nos recrutou Valentin, havia por fim se iniciado.

Por esta vivência e por outras experiências é que defendo que o melhor que possa ser feito a um povo e aos seus artistas é dar-lhes condições para que possam realizar uma sólida e contínua formação, pois, caso contrário, viveremos no campo da boa vontade de quem nos assiste e da insatisfação de não ter dado tudo de si em cena. A formação é a maneira mais democrática de dar oportunidade ao artista de se descobrir e de se desnvolver. E esta responsabilidade é pública, pois a cultura e a educação de um povo são responsabilidades públicas.

Ecila Meneses

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Grupo de Estudos e Trabalhos em Stanislavski - GETS


Desde janeiro de 2007 o ator cearense Carlos Façanha vem desenvolvendo uma pesquisa sobre o método de Constantin Stanislavski e sua relação com a dramaturgia de Anton Tchekhov. Durante quase dois anos consecutivos estagiou na Academia de Arte de Moscou, tendo como mestre o professor e diretor, hoje decano da instituição, Valentin Teplyakov. Graças a sua obstinação e seu zelo com o fazer teatral, Carlos trouxe para o Estado do Ceará, pela primeira vez, o professor Valentin, considerado um dois maiores diretores teatrais da atualidade. O curso, que durou três semanas, foi realizado em agosto de 2008, e ensejou a criação de uma equipe que tinha por objetivo o detalhamento do texto “As Três Irmãs”, de Anton Tchekhov, baseando-se no método de Constantin Stanislavski.
A ligação de Tchekhov e Stanislavski é bem conhecida. É importante registrar que a primeira peça de Tchekhov, “A Gaivota”, que o resgatou como dramaturgo e o alçou à categoria de gênio, foi montada pelo jovem Stanislavski e o não menos genial Dantchenko. A encenação de “A Gaivota”, em 1898, inaugura uma fase revolucionária do teatro ocidental, o “realismo”.
A despeito, porém, do reconhecimento da genialidade destes dois grandes homens do teatro, há uma má informação do que seja realmente o trabalho do ator sob a ótica de Stanislavski e a obra de Tchekhov. Passadas tantas décadas eles continuam sendo mal compreendidos, e, portanto, pouco palatáveis ao grande público.
A montagem de “As Três Irmãs”, espetáculo que está sendo idealizado pelo Grupo Gets, solidificará o grupo de pesquisa atento à missão do fazer teatral, a elevação do espírito humano, materializada através da construção de personagens densos que conseguem sobreviver às intempéries e tragédias da vida mediante a força de sua paixão e de seu trabalho. Acreditamos que esta é a grande lição da obra de Tchekhov e do método criativo de Stanislavski, e temos por objetivo compartilhar os frutos de nossa pesquisa com o público.